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Mutirão para transformação dos sistemas alimentares do Brasil: reimaginando o papel da filantropia

Sistemas alimentares
27.02.2026

No contexto da COP30, o painel “Mutirão para a transformação dos sistemas alimentares do Brasil: reimaginando o papel da filantropia” evidenciou a crescente maturidade e a urgência do debate sobre sistemas alimentares no país. Organizado por Tilt Collective, Porticus e Instituto Ibirapitanga, a iniciativa foi apresentada como um convite à reflexão sobre o papel da filantropia nessa transformação, não apenas a partir do Brasil como país anfitrião, mas como liderança capaz de centralizar o direito humano à alimentação adequada e a transformação estrutural dos sistemas alimentares.

Democracia, direitos e sistemas alimentares

Ao situar o debate em perspectiva histórica, Elisabetta Recine, presidenta do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, indicou que a própria presença de uma atividade dedicada à filantropia e aos sistemas alimentares na COP sinaliza uma inflexão relevante. Duas décadas atrás, uma articulação entre filantropia, agenda de direitos, soberania alimentar e justiça social seria improvável. Hoje, esse diálogo revela a emergência de um campo filantrópico que se reconhece como parte de um projeto político mais amplo de enfrentamento das desigualdades.

Elisabetta destacou que soberania alimentar e justiça social se constroem no cotidiano dos territórios, e que cabe à filantropia tornar essas experiências visíveis, conectá-las e evitar que permaneçam isoladas.

A democracia atravessou sua fala de forma central. Ao lembrar as extinções do Consea,  especialmente a de 2019, Elisabetta apontou a negação da fome e da participação social como marcas de um período recente, contrapondo-as à resistência da sociedade civil entre 2019 e 2023, simbolizada por mobilizações como o Banquetaço. Sua mensagem à filantropia foi direta: fortalecer movimentos enraizados nos territórios, ampliar capacidades e sustentar redes de resistência e criação são condições para que a dignidade permaneça como princípio organizador da ação coletiva.

A transição em disputa

Arilson Favareto, professor titular da Cátedra Josué de Castro da USP e do Programa de Pós-Graduação em Planejamento Territorial da UFABC, organizou sua contribuição a partir da urgência da transformação do sistema agroalimentar brasileiro. Ao lembrar que, no Brasil, esse sistema é o principal vetor de emissões de gases de efeito estufa, afirmou que a transição agroalimentar não é opcional, mas condição para qualquer estratégia climática consistente.

Arilson apresentou duas advertências centrais: a redução da agenda ao carbono, ignorando a “tríplice monotonia” da paisagem, da produção e do consumo; e o risco de dissociar transição climática de justiça social, aprofundando desigualdades. Para a filantropia, apontou quatro frentes estratégicas: (i) fortalecer redes e experimentações; (ii) investir em capacidades sociais e institucionais; (iii) apoiar a produção de conhecimento em diálogo entre saberes; e (iv) contribuir para mudar as regras do jogo, ampliando a capacidade de incidência sobre estruturas e regimes de financiamento.

Narrativas, poder e visibilidade

A partir do jornalismo, Eliane Brum, diretora de Sumaúma, apresentou o trabalho da iniciativa como uma estratégia de disputa de poder e visibilidade. Atuando nos epicentros do desmatamento, das queimadas e da violência na Amazônia, o projeto foi descrito como um processo de transmissão de poder, voltado à formação de jornalistas da floresta capazes de narrar o mundo a partir de outros pontos de vista.

Eliane provocou o debate ao desmontar representações idealizadas da Amazônia e expor a centralidade da pecuária na destruição do bioma, citando São Félix do Xingu como símbolo desse modelo. Em diálogo com saberes indígenas, propôs deslocar o foco da “agroecologia” para a “água-ecologia”, enfatizando a interdependência entre sistemas alimentares, ciclos hidrológicos e sobrevivência.

Ao denunciar o volume de isenções fiscais ao agronegócio e às grandes corporações, conectou sistemas alimentares à justiça fiscal, ao racismo ambiental e à colonialidade. Sua intervenção reafirmou o jornalismo como campo estratégico na disputa de sentidos, visibilidades e poder.

Reimaginar o papel da filantropia

Para Andre Degenszajn, diretor-presidente do Instituto Ibirapitanga, a filantropia não é externa à sociedade civil, mas parte constitutiva dela. Seu valor estratégico não está na escala financeira, mas na capacidade de assumir riscos, apoiar processos de longo prazo, fortalecer capacidades institucionais e apostar em agendas contramajoritárias.

Andre destacou que a agenda de sistemas alimentares ainda é recente e subfinanciada no Brasil, muitas vezes acessada pela via climática com foco excessivo em carbono. Defendeu a construção de um campo filantrópico mais diverso e menos tecnicista, capaz de integrar saúde, cultura alimentar e desigualdades, atuando também na formatação de agendas e na criação de espaços de diálogo.

Sarah Lake, CEO da Tilt Collective, apresentou a organização internacional como uma filantropia comprometida com uma abordagem holística, na interseção entre clima, alimentação, saúde e justiça social. Para ela, não há como pensar sistemas alimentares globais sem o Brasil. Sua atuação no país se ancora nas oportunidades e na força de um movimento já existente, que a Tilt busca financiar, fortalecer e catalisar, respeitando a diversidade territorial e rejeitando soluções padronizadas. Reconhecendo os limites de escala da filantropia, Sarah destacou seu papel em mobilizar outros atores e alinhar esforços para evitar a fragmentação.

Apoio a experiências territoriais e à governança democrática

No encerramento, Paulo Petersen, enviado especial para agricultura familiar na COP30, afirmou que os sistemas alimentares são hoje a principal porta de entrada para o enfrentamento da crise climática. A agricultura familiar foi apresentada como uma outra economia agrícola, enraizada nos territórios e portadora de soluções estruturais, capaz de reconectar alimento, cultura e saúde.

Para Paulo, a agroecologia não é apenas uma técnica, mas uma proposta de reorganização sistêmica dos sistemas alimentares. Ao tratar da filantropia, foi enfático ao afirmar que ela não pode substituir o Estado. Seu papel estratégico está em fortalecer experiências territoriais, articular redes e contribuir para a reconstrução de uma governança democrática que reequilibre mercado, Estado e sociedade.

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      Valor

      R$ 1.000.000,00

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      Valor

      R$ 345.000,00

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      Valor

      R$ 200.000,00

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      6 meses

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      2025

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