
Fernando Frazão / Agência Pública
Desde o período colonial, a hegemonia do catolicismo esteve associada a processos de apagamento cultural de populações escravizadas, com perseguições a Terreiros e repressão a expressões afro-brasileiras. Nas últimas décadas, o crescimento de vertentes pentecostais do cristianismo nas periferias urbanas introduziu novos elementos de tensão, com o recrudescimento de narrativas que demonizam cultos afro-brasileiros e aprofundam a intolerância religiosa. Esse cenário foi intensificado pela atuação de lideranças religiosas conservadoras que defendem a ideia de um Brasil exclusivamente cristão, contribuindo para a ampliação de preconceitos tanto contra religiões de matrizes africanas quanto por meio de generalizações que também atingem a diversidade do campo evangélico.
Apoiado pelo Instituto Ibirapitanga, é nesse contexto que o ISER — Instituto de Estudos da Religião lançou o projeto “Axé-Amém”, uma formação que promove o diálogo e o encontro entre pessoas negras evangélicas e de Terreiro, buscando superar hostilidades e construir um futuro mais inclusivo, a partir de encontros e aprendizado mútuo, visando o bem comum. No ano passado, a organização lançou um edital que selecionou 30 pessoas negras evangélicas ou de Terreiro para partilharem experiências coletivas das trajetórias de suas comunidades religiosas/espirituais/culturais e sua importância frente à construção de uma sociedade mais justa e respeitosa. A iniciativa propôs refletir e construir estratégias que visam resistir ao racismo e ao racismo religioso, este último que afeta e vitimiza especialmente as pessoas negras praticantes de religiões de matrizes africanas. Assim, a experiência defendeu a possibilidade de interlocução, diálogo e cooperação entre pessoas negras, de diferentes pertenças e práticas espirituais, mas historicamente vulneráveis no Brasil.
Ao longo de meses de encontros, pastoras/es, pais e mães de santo, teólogas/os, ativistas e docentes compartilharam experiências, reflexões e desafios comuns. A metodologia adotada priorizou a escuta ativa, o reconhecimento das diferenças e a disposição para enfrentar tensões históricas, compreendendo que o debate religioso mobiliza valores e símbolos profundamente enraizados. O percurso incluiu discussões sobre o papel social da fé, o reconhecimento de referências compartilhadas de luta e visitas a espaços simbólicos para as diferentes tradições envolvidas.
Um dos principais aprendizados do processo foi a identificação de uma dor comum: o impacto estrutural do racismo na vida das pessoas negras, independentemente de sua tradição religiosa. A adoção de uma perspectiva antirracista favoreceu a aproximação entre os participantes, contribuindo para a desconstrução de estigmas e para o reconhecimento da ancestralidade africana como elemento constitutivo de diferentes experiências de fé. Essa convergência possibilitou o exercício da alteridade e o fortalecimento de vínculos baseados no respeito mútuo.
Os resultados da iniciativa foram sistematizados na publicação Axé-Amém – Encruzilhadas da Fé Negra no Brasil, que reúne reflexões e relatos do percurso formativo. A obra reafirma o compromisso com o enfrentamento ao racismo religioso e com a garantia do direito à liberdade de crença. Para além da tolerância, o projeto evidencia a potência de identidades plurais e de trajetórias religiosas diversas, contribuindo para o debate público sobre democracia, laicidade do Estado e direitos.
O projeto “Axé-Amém” consolida-se, assim, como uma estratégia relevante de incidência política e social. Ao investir na cooperação entre grupos historicamente vulnerabilizados, a iniciativa demonstra que é possível transformar polarizações em oportunidades de diálogo e construção coletiva.
Sobre a doação
Apoio para ações de enfrentamento ao racismo religioso por meio da incidência no debate público, com o objetivo de mitigar os avanços de agendas ultraconservadoras que visam, entre outras consequências, excluir os povos de Terreiro da participação e contribuição na sociedade. Além disso, o apoio busca fortalecer a agenda de equidade racial em, e a partir de, comunidades de fé, por meio da formação, difusão de conhecimento e promoção de encontros presenciais para fortalecer práticas comuns contra o racismo religioso.
Valor
Duração
Ano
Sobre a doação
Apoio voltado à continuidade dos esforços do ciclo anterior, com foco no enfrentamento ao racismo religioso e na promoção da equidade racial em comunidades de fé, estruturando-se em dois eixos principais: formação e incidência no debate público. A organização se volta ao fortalecimento e ampliação das experiências das formações “Axé-Amém” e “Fé no Poder que Vem das Bases”, voltada à formação político-cidadã de lideranças religiosas em territórios periféricos. Ambas as ações buscam consolidar vínculos entre evangélicos, católicos e povos de Terreiro, estimulando o reconhecimento da memória negra e a produção simbólica afro-brasileira. O apoio prevê ainda a produção de conhecimento e comunicação estratégica para incidir no debate público, combater a desinformação e promover o respeito às expressões religiosas afro-brasileiras, reafirmando seu compromisso histórico com a equidade racial, a democracia e a liberdade religiosa.
Valor
Duração
Ano
Sobre a doação
Apoio voltado à realização da pesquisa quantitativa “Religião e Vida Pública no Brasil”, que busca compreender como as tradições religiosas influenciam valores, visões de mundo e percepções sobre temas centrais da vida democrática no país. O apoio viabilizará a condução de entrevistas com 15 mil pessoas em todas as regiões do Brasil, com os dados disponibilizados em plataforma digital aberta para pesquisadores, jornalistas e organizações da sociedade civil. Por meio do apoio a iniciativa espera: (i) produzir base de dados inédita, representativa e de acesso público sobre religião e vida pública no Brasil; (ii) geração de evidências qualificadas para apoiar estratégias de incidência, comunicação e formulação de políticas públicas pelo campo democrático; (iii) ampliação do debate público sobre o papel das religiões na sociedade brasileira, com alcance nacional e internacional.
Valor
Duração
Ano