
Crédito: Kio Lima - Nupens/USP
Sete estudos publicados entre 2022 e 2026 em periódicos brasileiros e internacionais trazem panoramas atuais sobre o debate, avaliam impactos e efeitos de intervenções regulatórias
“[…] nos conectamos em torno de poderosos chamados à ação. […] Essas vozes, e tantas outras que compartilharam suas perspectivas, nos lembraram do poder da liderança local e da solidariedade global.” Anna Lappé, diretora executiva da Global Alliance for the Future of Food
Inspirada pelos diálogos do Encontro Global sobre Transformação dos Sistemas Alimentares, realizado em 2025 pela Global Alliance for the Future of Food, Anna Lappé compartilhou as memórias da ocasião em um relato bastante sensível. Entre as vozes que ela cita, está a de Carlos Monteiro, pesquisador e fundador do Nupens/USP – Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo, professor emérito da Faculdade de Saúde Pública da USP.
Seu nome de fato se tornou bastante conhecido nacional e internacionalmente e carrega juntamente a referência do núcleo de pesquisas brasileiro que mudou a forma de classificar alimentos e, consequentemente, contribuiu para a uma transformação na compreensão e no enfrentamento de desafios sistêmicos da questão alimentar.
O Brasil é o país de origem da Nova, classificação alimentar reconhecida internacionalmente pela OMS – Organização Mundial da Saúde, pela FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura e por governos de vários países. Desenvolvida pelo Nupens/USP, sob a liderança do professor e pesquisador Carlos Monteiro, a classificação Nova apresentou ao mundo o conceito de ultraprocessados. Quase duas décadas depois da primeira aparição do conceito em uma revista científica de referência internacional, as evidências científicas sobre os danos dos ultraprocessados se ampliaram e se diversificaram, embasando iniciativas voltadas à sua regulação. O acúmulo de pesquisas publicadas em periódicos de referência global — The BMJ, The Lancet, American Journal of Preventive Medicine — associa o consumo elevado de ultraprocessados a mais de trinta desfechos adversos de saúde. Ainda assim, o cenário atual é de ampla disputa no debate público, em que a classificação Nova segue sendo questionada e passando por tentativas de desqualificação, com forte influência da indústria alimentícia.
Apesar dessas tentativas, a experiência local brasileira que vem pautando possibilidades de convergências globais em torno dessa agenda teve um novo importante capítulo em 2025. A série The Lancet sobre alimentos ultraprocessados e saúde humana, liderada por cientistas do Nupens e parceiros da Austrália e Chile, revisou evidências robustas indicando que os ultraprocessados estão substituindo alimentos in natura e minimamente processados nas refeições e estão associados ao maior risco de diversas doenças crônicas. Além da participação em destaque de Carlos Monteiro, os artigos contam com contribuições de outros pesquisadores vinculados ao Núcleo — Patricia Jaime (coordenadora científica), Maria Laura Louzada (vice-coordenadora científica), Renata Levy, Eurídice Steele-Martinez, Giovanna Andrade, Ana Clara Duran, Priscila P Machado, Jean-Claude Moubarac e Leandro Rezende.
Nesta entrevista, conversamos com Carlos Monteiro sobre avanços, novas fronteiras, desafios, próximos passos e o papel da filantropia no apoio à ciência livre de conflitos de interesse que está aprofundando o conhecimento voltado a fortalecer as bases de políticas e iniciativas para a restrição do consumo de ultraprocessados no Brasil e no mundo.
Ibirapitanga: A agenda voltada à restrição de consumo de ultraprocessados está num momento de maior internacionalização. Pensando no caminho percorrido pelo Nupens com a sua liderança, como você avalia essa posição singular que o Brasil ocupa, na origem desse conceito e da Classificação Nova, e como um país em que um laboratório vivo de experiências regulatórias nesse sentido estão em andamento? Como você enxerga esse momento em que a produção científica e a regulação no Brasil pautam de forma mais intensa políticas e debates internacionais?
Carlos Monteiro: O momento atual reflete um processo mais longo, em que o Brasil acabou assumindo um papel particular tanto na formulação conceitual quanto no desenvolvimento de políticas públicas relacionadas aos alimentos ultraprocessados. É menos um protagonismo e mais o resultado de uma trajetória em que produção científica, contexto social e capacidade institucional se combinaram para posicionar o país como uma referência no debate internacional. A Nova surgiu em um momento em que nós buscamos responder o que todo mundo queria responder: qual era a causa do aumento da obesidade?
Esse processo está ligado ao contexto brasileiro dos anos 2000, marcado por uma transição epidemiológica acelerada. Foi nesse contexto que pesquisadores buscaram interpretar mudanças que não eram plenamente explicadas pelos modelos convencionais, o que abriu espaço para novas abordagens.
Outro elemento relevante é que, até recentemente, o Brasil ainda mantinha traços relativamente fortes de padrões alimentares tradicionais. Isso contribuiu para que os ultraprocessados fossem identificados com mais nitidez como uma mudança externa aos sistemas alimentares existentes, e não como seu ponto de partida.
A produção desse conhecimento ocorreu em universidades públicas, com financiamento público e sem vínculos com a indústria, o que garantiu um grau de independência pouco comum internacionalmente. Essa autonomia foi decisiva para permitir uma análise mais direta sobre o papel das corporações na configuração dos padrões alimentares e dos perfis de adoecimento.
Além disso, a articulação entre produção científica e políticas públicas no Brasil nesse campo — em grande medida estruturada em torno do SUS – Sistema Único de Saúde — favoreceu a tradução desse conhecimento em ações concretas. Isso ajuda a explicar por que o país não apenas produziu conceitos, mas também passou a funcionar como um espaço de teste e implementação de políticas, como recomendações alimentares, regulação de ambientes institucionais e debates sobre publicidade.
Esse acúmulo faz com que o Brasil e outros países da América Latina passem a influenciar de forma mais direta a agenda global. A internacionalização da ciência é mais que encontrar pesquisadores de outros países ou participar de eventos, é pautar a agenda de pesquisa nas universidades. E isso acontece hoje. Trata-se não apenas da circulação de evidências, mas da difusão de uma forma específica de compreender o problema.
Ibirapitanga: A expansão da produção científica sobre os efeitos de ultraprocessados ganhou nova escala, a exemplo da série The Lancet sobre alimentos ultraprocessados e saúde humana, liderada por cientistas do Nupens e parceiros da Austrália e do Chile, que revisou evidências robustas indicando que os ultraprocessados estão substituindo alimentos in natura e minimamente processados nas refeições e estão associados ao maior risco de diversas doenças crônicas. Como você localiza esta publicação na trajetória do Nupens e o que considera destaques fundamentais da série?
Carlos Monteiro: Eu vejo essa publicação como a consolidação mais refinada de um trabalho que vem sendo construído há décadas.
A Série não surge como um ponto de partida, mas como um momento de síntese. Ela organiza um conjunto muito amplo de evidências acumuladas ao longo do tempo, apresentadas de forma coerente, articulando diferentes dimensões do problema: desde a caracterização dos ultraprocessados e sua inserção nos sistemas alimentares até seus impactos sobre padrões de consumo, perfis de adoecimento e dinâmicas globais da indústria.
Um aspecto central é justamente o caráter colaborativo. Estamos falando de um esforço que reuniu 43 autores de diferentes países, o que evidencia uma capacidade de articulação que foi sendo construída ao longo dos anos. Não se trata apenas de somar contribuições, mas de conseguir dialogar entre contextos bastante distintos, produzindo uma leitura comum sobre um fenômeno que é global, mas que se expressa de formas específicas em cada realidade.
A publicação na The Lancet também tem um significado importante. Há o reconhecimento no âmbito científico, mas talvez tão relevante quanto isso seja a capacidade da série ultrapassar esse espaço e alcançar o debate público e político.
No caso brasileiro, a série ajuda a reforçar e a dar densidade a debates que já estavam colocados, como a discussão sobre a tributação de refrigerantes. Nesse sentido, ela não cria a agenda, mas amplia sua ressonância e fortalece sua base de evidências.
Ibirapitanga: Atualmente quais são as fronteiras de conhecimento e divulgação científica em que ainda é preciso avançar nessa agenda? Como o Nupens tem planejado e pensado o futuro do grupo em conexão com as mudanças nos padrões de alimentação no mundo?
Carlos Monteiro: Uma das principais fronteiras hoje está justamente na disputa em torno da produção e da legitimação do conhecimento científico.
A série da The Lancet mostra como a indústria atua ativamente na produção de dúvida científica, seja financiando pesquisas, influenciando agendas ou promovendo enquadramentos que diluem evidências já consolidadas.Há muito marketing também.
Também há uma resistência importante de pesquisadores que não são financiados pela indústria, mas que ainda são ancorados em uma visão mais tradicional da nutrição, centrada em nutrientes isolados. Nós mudamos o paradigma, mas ele convive com o paradigma anterior, do nutricionismo. Isso é natural no processo científico.
Mas, nesse sentido, também é possível identificar uma dimensão geopolítica e, em certa medida, colonial da ciência. A legitimidade de determinadas agendas e conceitos ainda é fortemente mediada por centros de produção científica do Norte global. Isso levanta uma questão importante — se essas mesmas evidências fossem produzidas em instituições como Harvard, encontrariam o mesmo nível de resistência?
Há desafios relevantes no campo da divulgação científica. Avançar nessa agenda implica não apenas comunicar melhor as evidências existentes, mas também enfrentar ativamente a desinformação e os conflitos de interesse que permeiam o debate público sobre alimentação e saúde.
Nesse contexto, o Nupens tem buscado consolidar uma atuação que articula produção científica, comunicação e incidência em políticas públicas. Sob a coordenação da professora Patricia Jaime, o grupo segue empenhado em produzir evidências robustas sobre os impactos dos alimentos ultraprocessados, ao mesmo tempo em que trabalha para que essas evidências subsidiem os tomadores de decisão no Brasil e internacionalmente.
Um dos nossos principais estudos, a coorte NutriNet Brasil, completa seis anos em 2026 e é um guarda-chuva para muitas pesquisas.
Ibirapitanga: Em 2025, você foi um dos convidados para realizar uma apresentação em uma sessão voltada a explorar a questão dos ultraprocessados sob várias lentes, no Encontro Global sobre Transformação dos Sistemas Alimentares, da Global Alliance for the Future of Food, aliança de fundações voltadas à transformação dos sistemas alimentares. Em nossa visão, esse momento marcou a expansão do reconhecimento do seu trabalho e do Nupens enquanto referência sobre essa agenda dentro do campo filantrópico internacional. Na sua opinião, como a filantropia pode operar de forma decisiva para apoiar o ecossistema de pesquisa, advocacy e comunicação voltado à agenda regulatória de ultraprocessados? Quais posições seriam estratégicas para a filantropia assumir no contexto atual?
Carlos Monteiro: O financiamento da ciência livre de conflitos de interesse é uma condição essencial para o avanço dessa agenda. Garantir recursos independentes não é apenas desejável, mas estruturante. É isso que sustenta a credibilidade das evidências e a capacidade de influenciar políticas públicas.
Nesse sentido, a filantropia pode desempenhar um papel decisivo ao investir de forma articulada em três frentes complementares: pesquisa, incidência e comunicação. Essa abordagem integrada é também proposta pela série do The Lancet, que convoca uma ação global coordenada.
Experiências internacionais mostram que coalizões amplas têm sido fundamentais para avanços regulatórios. Essas coalizões reúnem atores diversos — sociedade civil, academia, profissionais de saúde, lideranças políticas, comunicadores e filantropias — e operam a partir de três eixos estratégicos. O primeiro é a pesquisa, que produz evidências, apoia litígios estratégicos e orienta o desenho e a avaliação de políticas. O segundo é a incidência política, que envolve mapeamento de atores, análise jurídica e atuação junto a tomadores de decisão. O terceiro é a comunicação, com campanhas, engajamento midiático e organização social para disputar narrativas e gerar apoio público.
A filantropia pode fortalecer esse ecossistema justamente ao apoiar essas três dimensões de forma sustentada e coordenada, evitando abordagens fragmentadas ou de curto prazo. Isso inclui, por exemplo, financiar pesquisas independentes, apoiar redes de advocacy, fortalecer a comunicação de interesse público e investir em lideranças emergentes, como jovens ativistas e comunicadores nos territórios.
Instituições como a Global Alliance for the Future of Food têm um papel importante ao promover essa articulação em nível global, conectando agendas, países e atores diversos.O Ibirapitanga, por sua vez, assume um papel central no Brasil, com toda a sua atuação no eixo de sistemas alimentares.
Ibirapitanga: Por fim, gostaríamos também de saber qual é sua memória sobre a participação nesse encontro com diferentes atores articulados em torno da transformação de sistemas alimentares em diversos países. Como foi para você estar lá e quais trocas foram valiosas?
Carlos Monteiro: O que mais me marcou foi justamente a diversidade de atores envolvidos e a possibilidade de construir pontes entre essas perspectivas. Essas trocas são valiosas porque permitem não apenas compartilhar evidências, mas também estratégias.
Há um aprendizado coletivo que emerge quando conseguimos conectar experiências de diferentes países, seja em políticas de rotulagem, regulação de marketing ou organização de coalizões.
Para o Nupens, que sempre teve uma atuação muito conectada ao debate internacional, esses espaços reforçam a importância de seguir construindo conhecimento em diálogo com outros contextos, mas também de afirmar a relevância das experiências do Sul global nesse debate.
No fim, saí com a sensação de que, apesar dos desafios, há uma convergência crescente em torno da necessidade de agir e de que essa agenda só avança quando é construída de forma coletiva.
Sete estudos publicados entre 2022 e 2026 em periódicos brasileiros e internacionais trazem panoramas atuais sobre o debate, avaliam impactos e efeitos de intervenções regulatórias
Centro de referência na pesquisa sobre saúde alimentar, o Nupens, ligado à Faculdade de Saúde Pública da USP, reúne levantamentos sobre dietas, alimentos ultraprocessados, obesidade e condições alimentares. O núcleo propôs a classificação NOVA de alimentos e apoiou o Ministério da Saúde na elaboração e disseminação do Guia Alimentar para a População Brasileira.
Sobre a doação
O projeto é voltado à profissionalização das áreas de gestão e comunicação do Nupens/USP. O núcleo propôs a classificação NOVA de alimentos e apoiou o Ministério da Saúde na elaboração e disseminação do Guia Alimentar para a População Brasileira. O apoio tem como objetivos difundir os dados de suas pesquisas no Brasil e no exterior por meio da imprensa e das mídias sociais, bem como obter maior incidência política quanto aos impactos de alimentos ultraprocessados na saúde.
Valor
Duração
Ano
Sobre a doação
Apoio ao desenvolvimento e início da operação da Cátedra “Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis” na USP – Universidade de São Paulo, coordenada por Tereza Campello, ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. O projeto da Cátedra busca criar um espaço de produção de conhecimento interdisciplinar, multidimensional e compartilhado com diversos atores para discutir as transformações dos sistemas alimentares no país a partir da interação entre as diversas dimensões da sustentabilidade – econômica, ecológica, da saúde humana, sociocultural e política.
Valor
Duração
Ano
Sobre a doação
Apoio para elaboração e execução do plano de comunicação para condução de ações estratégicas do NUPENS nos próximos 24 meses. O apoio prevê consultoria de comunicação no período de três meses, para análise das necessidades e objetivos do núcleo, bem como, a criação de fluxos, estratégias e rotinas. O projeto inclui capacitação de pesquisadores para ampliar o entendimento sobre divulgação científica, como parte do processo de produção da ciência.
Valor
Duração
Ano
Sobre a doação
Apoio para renovação da operação da Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis na USP – Universidade de São Paulo, coordenada por Tereza Campello, ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. O projeto da Cátedra promove um espaço de produção de conhecimento interdisciplinar, multidimensional e compartilhado com diversos atores para discutir as transformações dos sistemas alimentares no país a partir da interação entre as diversas dimensões da sustentabilidade – econômica, ecológica, da saúde humana, sociocultural e política.
Valor
Duração
Ano
Sobre a doação
Apoio à reestruturação da área de comunicação do Nupens, transformando-a em uma gerência e estabelecendo uma supervisão unificada de projetos, a partir da ampliação da equipe. O novo desenho da comunicação também tem o objetivo de diversificar os financiadores da área.
Valor
Duração
Ano
Sobre a doação
Apoio voltado à sustentabilidade e à manutenção das atividades da Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis durante o segundo período de convênio (2023 a 2025). Por meio do apoio, a iniciativa busca consolidar e fortalecer o espaço de reflexão e produção de conhecimento sobre sistemas alimentares já construído, com o objetivo de avançar para além dos debates setoriais, propondo soluções complexas e integradas, com foco no consumidor como parte central do sistema. Com o apoio, a iniciativa pretende organizar suas atividades em três grandes eixos: (i) inventariar e incubar projetos, promover colaboração entre pesquisadores, definir agendas prioritárias e produzir evidências científicas que integrem múltiplas perspectivas para o aprimoramento dos sistemas alimentares no Brasil. (ii) capacitar estudantes, gestores e outros atores chave, além de promover debates e disseminar reflexões de diferentes segmentos da sociedade sobre os desafios e avanços no campo dos sistemas alimentares. (iii) engajar gestores públicos, organizações e ativistas em torno de uma agenda transformadora que promova o direito à alimentação saudável e sustentável. Esse apoio foi realizado em parceria com o Itaúsa.
Valor
Duração
Ano
Sobre a doação
Apoio para fortalecer a Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis, sua produção de conhecimento interdisciplinar e a promoção de debates entre atores dos setores público, privado e da sociedade civil, incidindo sobre processos de tomada de decisão nas esferas pública e privada. Por meio do apoio, a iniciativa tem como resultado esperado: (i) produção e disseminação de estudos e policy briefs que fundamentem a análise multidimensional dos limites do sistema alimentar hegemônico; (ii) ampliação do diálogo entre academia, governo, movimentos sociais e setor empresarial em torno de uma agenda concreta de transição; (iii) fortalecimento da capacidade de incidência da Cátedra em políticas públicas, com atenção especial aos debates no âmbito da COP 30.
Valor
Duração
Ano