A iniciativa Énois é uma organização fundada há 16 anos no Capão Redondo (SP), que surgiu como um curso de jornalismo e se consolidou como uma escola e rede dedicada à formação e ao fortalecimento de comunicadores e coletivos de territórios populares. Criada por Amanda Rahra e Nina Weingrill, e hoje liderada por Amanda Rahra, Sanara Santos e Simone Cunha, a Énois atua para promover diversidade, equidade racial e territorial no jornalismo brasileiro, impulsionando práticas colaborativas e narrativas que expressem as realidades e o protagonismo das periferias.
Sistemas alimentares na agenda climática: os apoios do Ibirapitanga para incidência na COP30
Sistemas alimentares
07.11.2025

A COP30 — Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 está às vésperas de acontecer e, para o campo de sistemas alimentares, esta edição representa uma das maiores janelas de avanço da interface com o debate climático. O momento de maiores possibilidades para esse diálogo é fruto da incidência da sociedade civil organizada em edições anteriores da COP e em outros espaços de atuação e cooperação internacional, o que gerou acúmulos também para uma diversidade de abordagens na relação entre clima e sistemas alimentares.
Entre essas diversas possibilidades de interface, o Ibirapitanga está atuando com apoios diretos voltados a quatro objetivos, definidos a partir da escuta ao campo e considerando as próprias prioridades da agenda na COP. Um dos objetivos se volta ao fortalecimento e qualificação da inserção de sistemas alimentares na agenda climática global, em perspectiva sistêmica, orientada a soluções justas e enraizadas nos territórios. Outro objetivo está em ampliar a representatividade e incidência de povos e comunidades tradicionais e da agricultura familiar local no debate climático global. Apresentar soluções justas e sustentáveis baseadas na agroecologia, em contraponto à interferência do agronegócio também se constitui enquanto sentido desses apoios. Por fim, mas não menos importante, os apoios se voltam a contribuir para disparar e catalisar a articulação política e as inovações sociais a partir das fricções entre o campo climático e alimentar.
Saiba mais sobre as organizações apoiadas pelo Ibirapitanga para incidência na COP30 e o que elas já estão fazendo.
Instituto Mapinguari
Fundado em 2015 no Amapá, o Instituto Mapinguari tem como propósito a preservação da Amazônia, por meio do estabelecimento de relações justas e equitativas, com respeito à autonomia dos povos e seus conhecimentos tradicionais. A organização atua para promover o desenvolvimento socioambiental através de estratégias de proteção, pesquisa e educação ambiental. Conta com uma consistente inserção territorial junto a comunidades quilombolas e ribeirinhas, atuando em rede, com governança plural e equipe jovem majoritariamente feminina, negra e oriunda de comunidades tradicionais. Desde 2021, a organização tem atuado na incidência nos espaços de negociação globais em torno de sistemas alimentares e transição justa.
A organização conta com o apoio do Ibirapitanga para fortalecer sua atuação na agenda climática nacional e internacional, com foco na participação da sociedade civil amazônida e latino-americana na COP30. Por meio do apoio, a iniciativa organiza e coordena o Comitê COP30, uma articulação de mais de 90 organizações, que promove a integração regional na América Latina e a diplomacia da sociedade civil junto a embaixadas e representações internacionais. A iniciativa visa qualificar a presença da sociedade civil nas negociações climáticas, influenciar decisões e posicionamentos do Brasil e de países latino-americanos durante a Conferência, bem como assegurar que essas decisões considerem as realidades de comunidades quilombolas, ribeirinhas e tradicionais, com ênfase em justiça climática.
Recentemente, o Comitê COP30 lançou a campanha Nossa chance para adiar o fim do mundo, que inclui um guia prático de segurança para ativistas, um documento de recomendações ao governo federal para a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês) construído por organizações do comitê e um caderno de atividades para tornar mais simples e acessível a conexão entre os temas da agenda climática internacional e a vida cotidiana. O guia é voltado a trabalhadores da educação, coletivos, entre outros públicos.
No dia 20 de setembro, em celebração ao mês da Amazônia e como parte da programação da pré-COP30, o Instituto Mapinguari realizou o evento ATP apresenta: Vozes Amazônicas, que reuniu arte, pesquisa e diferentes saberes em um espaço de diálogo sobre desenvolvimento socioeconômico e estratégias para enfrentar a crise climática. O evento contou com a divulgação dos resultados da pesquisa de opinião “Vozes do Amapá: caminhos e perspectivas sobre o futuro ecônomico e ambiental do estado”; com um momento de escuta coletiva e incidência junto ao Balanço Ético Global; e com uma mobilização do público para a coleta de assinaturas em apoio à Virada Amazônia de Pé 2025.
O evento reuniu um público de 50 pessoas, majoritariamente jovens, negras e periféricas, favorecendo a pluralidade de vozes no debate sobre a Amazônia e a crise climática. As reflexões da atividade deram origem a um documento coletivo que foi submetido ao Balanço Ético Global.
ANA Amazônia — Articulação de Agroecologia da Amazônia
A ANA Amazônia tem como missão promover a agroecologia como ferramenta de resistência e transformação social e econômica. A organização atua desde 2003 articulando e fortalecendo povos originários, comunidades tradicionais e agricultores familiares da Amazônia Legal na defesa de seus territórios, modos de vida e direitos coletivos, visando a sustentabilidade socioambiental, a justiça social, a soberania alimentar e a preservação da biodiversidade para as gerações presentes e futuras.
A ANA Amazônia conta com apoio do Ibirapitanga para o fortalecimento do Grupo de trabalho de sistemas alimentares saudáveis da Cúpula dos Povos rumo à COP30, iniciativa que reunirá mais de 500 organizações da sociedade civil global em Belém, entre 12 e 16 de novembro. Nesta iniciativa, a ANA Amazônia se volta a viabilizar a logística, alimentação e realização de feiras da sociobiodiversidade e de troca de sementes, além de um grande “banquetaço” como ato simbólico e político sobre a diversidade alimentar dos povos. Pela primeira vez, a alimentação na Cúpula dos Povos será oferecida integralmente por comunidades tradicionais, da reforma agrária e pela agricultura familiar, com alimentos agroecológicos e orgânicos.
Unindo diversas vozes e perspectivas, a Cúpula dos Povos Rumo à COP30 apresenta um manifesto com um conjunto de seis eixos e bandeiras de luta que buscam transformar a realidade e construir um futuro popular, explorando os desafios globais e as soluções que podem ser construídas coletivamente, valorizando a diversidade dos povos e a urgência de ação no presente. Os eixos são: (i) territórios e maretórios vivos, soberania popular e alimentar; (ii) reparação histórica, combate ao racismo ambiental, às falsas soluções e ao poder corporativo; (iii) transição justa, popular e inclusiva; (iv) contra as opressões, pela democracia e pelo internacionalismo dos povos; (v) cidades justas e periferias urbanas vivas; e (vi) feminismo popular e resistências das mulheres nos territórios.
Ainda no contexto da iniciativa, a ANA consolidou o Mapeamento Agroecologia, Território e Justiça Climática, levantando mais de 500 experiências de agroecologia que enfrentam as mudanças climáticas e têm desenvolvido diferentes estratégias por meio de práticas como o manejo e conservação do solo, a diversificação de sistemas produtivos, o plantio de árvores e reflorestamento e a compostagem. O mapeamento será apresentado em grandes encontros, como o 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia, a Cúpula dos Povos rumo à COP 30 e o V Encontro Nacional de Agroecologia, posicionando a potência dos sistemas alimentares locais como resposta à crise climática.
Observatório do Marajó
Fundado em 2020, o Observatório do Marajó tem como missão o fortalecimento da luta pela garantia e efetivação dos direitos das comunidades tradicionais do Marajó. A organização atua na construção de ferramentas acessíveis e transformadoras de incidência e ação política que fortaleçam as lideranças locais e que posicionem suas agendas de bem viver e justiça socioambiental no centro das prioridades das políticas públicas da região.
O Observatório do Marajó conta com o apoio do Ibirapitanga para a iniciativa “Rotas do Marajó”, articulada para garantir que a agenda dos territórios tradicionais marajoaras esteja presente na COP30. O projeto reúne coletivos, organizações e instituições parceiras do Marajó, da Pan-Amazônia e de outras regiões, promovendo encontros preparatórios para definir estratégias, protocolos e posicionamentos conjuntos. A iniciativa busca fortalecer as lideranças e soluções marajoaras no debate climático nacional e internacional, estimular a implementação de novos sistemas agroflorestais — como soluções de adaptação climática — e defender compromissos concretos pela transição energética justa e pela proteção dos territórios tradicionais.
Em outubro, o Observatório do Marajó lançou um documento de incidência política contendo quatro pontos com demandas marajoaras para a COP30 em Belém, que reúne propostas coletivas que perpassam pelas vivências da população no Marajó. O documento foi construído a partir do trabalho de monitoramento que a organização realiza para pautar políticas públicas nos 17 municípios marajoaras e foi entregue às enviadas especiais da COP30 Janja Lula da Silva (Mulheres), Denise Dora (Direitos Humanos e Transição Justa) e Jurema Werneck (Igualdade Racial e Periferias).
A organização também realizou os encontros Caminhos do Marajó Rumo à COP30, momentos com lideranças, coletivos e organizações marajoaras para cocriar e alinhar agendas coletivas, pensando caminhos a serem trilhados até a Conferência em Belém.
Ainda no contexto da COP30, O Observatório do Marajó e o Instituto Mapinguari, mencionado anteriormente, estão organizando ações de artivismo da Marcha Mundial por Justiça Climática e da Tenda do Cuidado na Praça da República.
Rede Comuá
A Rede Comuá é uma articulação que reúne fundos temáticos, comunitários e fundações comunitárias que mobilizam recursos de diferentes origens para fortalecer grupos, coletivos e organizações da sociedade civil atuantes em justiça socioambiental, direitos humanos e desenvolvimento comunitário. A Rede tem como estratégia central apoiar financeiramente iniciativas lideradas por minorias políticas, contribuindo para a promoção de direitos e o fortalecimento da democracia brasileira. Ao integrar e potencializar a atuação conjunta de seus membros, a Comuá amplia a visibilidade e o impacto da filantropia para a justiça social no país.
A Rede Comuá conta com o apoio do Ibirapitanga para a implementação da Casa Sul Global, iniciativa que articula a incidência política, mobilização e produção de conhecimento sobre justiça climática na perspectiva do Sul Global, reunindo organizações, fundos comunitários e lideranças territoriais da América Latina, África e Sudeste Asiático na COP30. A Casa funciona como espaço físico e virtual de diálogo, com atividades formativas, rodas de debate, exposições e construção coletiva de posicionamentos sobre o financiamento direto a comunidades locais. A iniciativa estimula o fortalecimento de redes de filantropia comunitária, para gerar conhecimento aplicado e consolidar um modelo replicável de incidência internacional, ampliando a visibilidade e o protagonismo dos povos e territórios do Sul Global nas decisões climáticas globais.
Em junho, durante a London Climate Action Week, foi realizado um pré-lançamento d’A Casa Sul Global, reunindo representantes de fundos socioambientais do Sul Global e parceiros com tomadores de decisão e atores estratégicos da filantropia e do financiamento global e de financiamento climático. Em um café da manhã acolhedor, estratégico e orientado à cooperação internacional, a iniciativa promoveu um diálogo sobre a chegada de recursos financeiros de forma segura, direta e eficaz às comunidades que estão na linha de frente da proteção dos territórios e no cuidado com as pessoas e o clima.
Mais recentemente, em outubro, foi lançado o manifesto “Sul Global no centro: um manifesto por uma nova arquitetura de financiamento para clima, natureza e pessoas”, elaborado a partir de um processo coletivo de construção em sete etapas ao longo da Jornada COP30 — uma série de encontros preparatórios e formativos que antecedem a primeira edição d’A Casa Sul Global durante a COP30. O processo contou com a participação de membros das redes que compõem a Casa Sul — fundos socioambientais da Alianza Socioambiental Fondos del Sur, Rede Comuá, Rede de Fundos Comunitários da Amazônia e o movimento #ShiftThePower.
Construída coletivamente — por meio de uma metodologia que envolveu uma chamada de propostas e um Comitê Curatorial com representantes de diferentes regiões, idiomas e biomas — a programação d’A Casa reflete a diversidade do Sul Global e propõe debates enraizados em soluções de quem vive nos territórios.
Énóis
A Énois foi fundada há 16 anos no Capão Redondo, São Paulo (SP), a partir de um curso de jornalismo e se consolidou como uma escola e rede dedicada à formação e ao fortalecimento de comunicadores e coletivos de territórios populares. A organização atua para promover diversidade, equidade racial e territorial no jornalismo brasileiro, impulsionando práticas colaborativas e narrativas que expressem as realidades e o protagonismo das periferias.
Com o apoio do Ibirapitanga a organização se volta ao fortalecimento e à distribuição do Guia Prato Firmeza Amazônia, com o objetivo de consolidar a alimentação tradicional e periférica como pauta central do debate climático a partir das periferias brasileiras. O apoio viabiliza a distribuição de mais de 1.000 exemplares do guia em pontos de varejo popular, eventos culturais, gastronômicos, saraus, slams e projeções urbanas em Belém, Manaus e São Paulo, além da produção e disseminação de conteúdos autorais por coletivos periféricos, fortalecendo produtores, restaurantes e iniciativas locais de comunicação. A organização busca garantir que o guia funcione como ferramenta de mobilização, visibilidade e conexão entre territórios periféricos e o debate climático nacional e internacional, especialmente no contexto da COP30, ampliando o impacto e a sustentabilidade do projeto.
A mobilização da Énóis para a COP30 contou também com o Prato Firmeza Amazônia – Alimentação, Clima e Justiça Tributária, um programa de formação e financiamento de projetos transmídia voltado a comunicadores, artistas e ativistas da Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Maranhão, Rondônia, Roraima e Tocantins). O programa combinou quatro encontros formativos online e apoio financeiro aos projetos selecionados, para a criação de dois produtos autorais em diálogo com os temas de alimentação, clima e justiça tributária, que fortaleçam vozes amazônidas. Outra ação da mesma iniciativa é a série de dois episódios de podcast Prato Firmeza Amazônia, onde Maickson Serrão conduz o público por uma imersão nos saberes e sabores que moldam a culinária amazônica. Os dois episódios estão disponíveis no Spotify do Prato Firmeza e contam histórias da comida ancestral amazônica como um caminho para sistemas alimentares mais justos e resilientes.
Instituto Comida do Amanhã
Fundado em 2016, o Instituto Comida do Amanhã é um Think Tank que apoia a transição para sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis para as pessoas e para o planeta, a partir das cidades. A organização atua de forma interdisciplinar e intersetorial para conscientizar e impactar indivíduos, instituições e tomadores de decisão, com dois objetivos específicos e interdependentes: promover uma mudança de comportamento e entendimento sobre a comida e seus impactos, e advogar por políticas públicas centradas no direito à alimentação adequada.
O Instituto Comida do Amanhã conta com o apoio do Ibirapitanga para o Food Roots and Routes Pavilion, um polo de debates de sistemas alimentares da sociedade civil organizada na Zona Azul— local onde ocorrem as negociações oficiais da Cúpula de Líderes e dos pavilhões nacionais —, promovendo visibilidade internacional para dialogar com governos e apresentar propostas e experiências da sociedade civil brasileira.
Reunindo diferentes vozes dedicadas a pautar a transição ecológica justa dos sistemas alimentares como parte da solução climática, o Food Roots and Routes Pavilion surge como um espaço de encontro e inspiração durante a conferência, com foco na visão, experiências, conhecimentos, proposições sistematizadas e contribuições do Sul Global.
Com uma curadoria colaborativa, o pavilhão reunirá em sua programação saberes tradicionais, ciência e inovação para fortalecer caminhos rumo a uma transição ecológica justa dos sistemas alimentares, de 10 a 21 novembro, na Zona Azul da COP30 em Belém do Pará.
IPSA – Aliança Internacional para a Padronização de Agrotóxicos
A IPSA é uma iniciativa global dedicada ao fortalecimento de padrões internacionais para o uso de pesticidas, articulando ciência, sociedade civil e políticas públicas em torno de uma agenda comum: a criação de um marco regulatório internacional para agrotóxicos, com especial ênfase na eliminação dos altamente perigosos. Lançada oficialmente na Conferência da Água da ONU, em março de 2023, a IPSA nasceu de uma coalizão entre instituições acadêmicas, organizações da sociedade civil e governos do Sul Global que identificaram a lacuna crítica na governança internacional sobre pesticidas e os impactos dessa omissão para a saúde humana, os ecossistemas e a soberania alimentar.
A organização conta com apoio do Ibirapitanga para fortalecer sua atuação durante a COP30, em Belém do Pará, por meio de duas ações principais. Uma delas será uma intervenção simbólica para tornar visível o problema da baixa regulação de agrotóxicos com a exposição de um inflável de 15 metros de altura, no formato de uma embalagem de agrotóxico, instalado em um espaço público de alta visibilidade em Belém.
Além da intervenção, a IPSA organizou no dia 6 de novembro uma mesa-redonda sobre agrotóxicos, integrada à conferência “Cooperação Sul-Sul e Multilateralismo para a Segurança Hídrica, Alimentar e Climática”, no âmbito da COP30. A mesa reuniu especialistas, representantes de governos, parlamentares, juristas e organizações da sociedade civil, promovendo o diálogo multilateral e a construção de propostas concretas para avançar na regulamentação internacional de agrotóxicos.