
“É importante hoje, na construção de um país mais justo e igualitário, corrigir as distorções de um sistema que, como a gente sabe, cobra mais de quem tem menos. Então eu queria deixar aqui todo o meu apoio à tributação progressiva, todo o meu apoio à taxação das grandes fortunas e à democracia com justiça tributária.” A fala do cineasta e fundador do Instituto Ibirapitanga, Walter Salles, durante o 22ª edição do Prêmio Faz Diferença, sintetiza e promove importante defesa a uma ideia que vem ganhando força no debate público: a taxação dos super-ricos como instrumento de justiça social.
Na mesma direção, em entrevista ao Reset, o empresário Jayme Garfinkel, acionista controlador da Porto Seguro, defende que o Projeto de Lei 1.087 de 2025, proposto pelo governo federal, “é correto”, adicionando que “precisamos aumentar o imposto [de quem ganha mais] porque há uma distribuição de renda totalmente absurda e incrivelmente injusta no Brasil”. Suas palavras ecoam a urgência de repensar um sistema tributário que, hoje, pesa desproporcionalmente sobre quem tem menos renda e reforça privilégios a quem tem mais. “Eu recebo dividendos e rendimentos de investimento, que são isentos. Na hora H, não pago imposto de renda efetivo. Então, eu, que sou privilegiado, tento cumprir a minha parte com filantropia”, completa Garfinkel.
Partindo das vozes de filantropos que estão na dianteira da defesa da tributação progressiva, neste “Perguntas e respostas” apresentamos a visão de Guilherme Cezar Coelho, diretor de cinema, empreendedor social, fundador da Matizar Filmes e da República.org, que há anos defende a redução da regressividade do sistema tributário brasileiro e a construção de um modelo mais justo, eficiente e alinhado às práticas internacionais.
Ibirapitanga: Você tem sido um defensor da redução da regressividade dos impostos brasileiros e do aumento da eficiência do sistema tributário. Na sua visão, por que esses são caminhos-chave para a justiça tributária?
Guilherme Cezar Coelho: Reduzir a regressividade do sistema tributário brasileiro é um caminho para maior crescimento econômico, pois aumenta a eficiência alocativa do capital.
Além disso, reduzir desigualdades de renda — em países tão desiguais como o Brasil — é uma condição para crescer mais. De dez anos para cá, a economia nos mostrou que devemos lutar por mais crescimento e mais redistribuição, pois estas duas agendas — uma mais de direita, outra mais de esquerda — estão ligadas.
Ibirapitanga: Você defende especificamente menos impostos sobre consumo e mais sobre a renda, mencionando que é assim nos países que dão certo. Pode nos dar breves exemplos dessa dinâmica em outros países?
Guilherme Cezar Coelho: A irracionalidade tributária brasileira é bem exposta em um estudo de Rodrigo Orair e Sérgio Gobetti que serviu de principal referência para a edição 1078 da Carta IEDI — Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, retratando uma clara assimetria na composição da nossa carga tributária, em comparação à média dos países da OCDE — Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.
Temos no Brasil hoje uma maior concentração da carga tributária em impostos sobre serviços e consumo, atingindo 40,9%, enquanto a tributação sobre a renda responde por apenas 22,4%. Em comparação, na média dos países da OCDE, esses percentuais são quase iguais, 32,1% para serviços e consumo, e 33,9%, para renda.
Ou seja, a tributação sobre a renda no Brasil está mais de dez pontos percentuais abaixo da média dos países da OCDE. Essa é a realidade: tributamos pouco a renda e, quando tributamos, há ainda o fato de que os super-ricos têm alíquota efetiva menor do que a classe média. No final, para compensar essa baixa tributação da renda, temos uma carga expressivamente maior sobre serviços e consumo, que incide violentamente sobre os mais pobres.
Sou favorável à redução dos tributos sobre serviços e sobre consumo e, numa segunda e necessária etapa, devemos reduzir os encargos sobre folha de pagamentos e o Imposto de Renda das empresas. Acredito que esse é o caminho para o crescimento econômico, para novos investimentos produtivos, para a geração de bons empregos, com seguridade social, e aumento das receitas tributárias que sirvam a um Estado voltado para o futuro.
O maior desafio brasileiro hoje é gerar crescimento econômico e o Brasil precisa de uma Reforma Tributária Integral para evitarmos aumentar a nossa carga tributária, por volta de 33%, uma das mais altas do mundo. Precisamos olhar o todo e mexer em diferentes tributos. Se errarmos a mão, atrapalharemos a nossa vida.
Temos agora a oportunidade de transformar nossa história econômica com uma discussão informada sobre a Reforma Tributária no Congresso. Não há momento mais preciso e bem-vindo.
Dizem que o melhor momento para se plantar uma árvore é dez anos atrás. E que o segundo melhor momento é hoje. Que venha então uma floresta – rica e diversa.