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Perguntas e respostas: entre a COP30 e as urnas

Sistemas alimentares
31.08.2026
Sistemas alimentares

As propostas de agenda democrática a partir dos sistemas alimentares nas eleições de 2026

Entre recomendações para programas, orçamentos, instâncias de controle social, integração de agendas, tributação, regulação e comunicação estratégica, reunimos a seguir algumas das principais propostas de iniciativas relacionadas às eleições de 2026

A COP30 – 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, realizada pela primeira vez na Amazônia e com presidência brasileira ainda em vigência até a próxima conferência, marcou um deslocamento importante no debate público sobre as mudanças climáticas. A transformação da agricultura e dos sistemas alimentares deixou de ser tratada como pauta setorial e passou a integrar os grandes eixos da agenda de ação internacional. Esse reposicionamento, influenciado em larga medida pela articulação da sociedade civil, aponta para a superação de abordagens fragmentadas, que reduzem as soluções para as mudanças climáticas à contabilidade de carbono, em direção a respostas que integram adaptação, soberania alimentar, agroecologia e justiça social.

O ciclo eleitoral de 2026 coloca à prova a capacidade de traduzir esse acúmulo em compromissos concretos, para que programas de governo, prioridades orçamentárias e compromissos legislativos reflitam a integração entre o campo climático e o campo alimentar.

O Instituto Ibirapitanga convidou Anália Barreto a responder a três perguntas sobre como as agendas construídas na COP30 podem estar presentes nas propostas de candidaturas nacionais e estaduais.

Anália Barreto é jornalista amazônida, diretora-executiva do Instituto Mapinguari e pesquisadora em Cultura e Política na Universidade Federal do Amapá (Unifap). Atua na Amazônia com incidência política e mobilização social nas agendas de justiça climática, sistemas alimentares resilientes e proteção territorial, articulando participação social, comunicação e políticas públicas. Acompanha as negociações climáticas internacionais e desenvolve estratégias para aproximar as agendas globais de clima das realidades, conhecimentos e prioridades dos territórios amazônicos.

Neste Perguntas e respostas, Anália Barreto nos ajuda a compreender o que observar nas prioridades das candidaturas para a integração das agendas climática e alimentar, o lugar da agroecologia, da agricultura familiar e dos povos e comunidades tradicionais como protagonistas dessa transição, e as estratégias de incidência que fortalecem a capacidade política dos territórios antes, durante e depois das eleições.

1. A presidência brasileira da COP30 se estende até a próxima conferência, que acontecerá depois das eleições de outubro no Brasil. Como o debate sobre sistemas alimentares adensado pela sociedade civil na COP30 pode influenciar as agendas das candidaturas nacionais e estaduais?

Anália Barreto: A COP30 foi importante para ampliar o debate público e a incidência política sobre sistemas alimentares para além da transição para modelos de produção de alimentos de baixa emissão de carbono, porque ela reposicionou essa agenda, colocando-a como uma questão central para garantir a redução de vulnerabilidades das populações mais impactadas pela crise climática. A própria agenda de ação estabelecida pela presidência da conferência, influenciada pela articulação da sociedade civil brasileira, inseriu a transformação da agricultura e dos sistemas alimentares como um de seus seis grandes eixos.

“Colocar a agenda construída pela sociedade civil e a presidência da COP30 dentro do contexto de eleições, é fazer com que candidaturas nos níveis nacional e estadual entendam quais compromissos têm sido construídos internacionalmente pelo país e quais compromissos ainda precisam ser articulados, diálogo esse que pode e, idealmente, deve influenciar concretamente o avanço e implementação de políticas públicas brasileiras.”

A disputa está nos programas de governo, prioridades orçamentárias e compromissos legislativos. Uma candidatura comprometida com sistemas alimentares resilientes precisa dizer, por exemplo, como pretende fortalecer agricultura familiar, agroecologia e sociobiodiversidade; como ampliará compras públicas de alimentos; como protegerá o PNAE – Programa Nacional de Alimentação Escolar, o PAA – Programa de Aquisição de Alimentos e políticas estaduais equivalentes; como estruturará assistência técnica e crédito orientados à adaptação climática; como enfrentará perdas de produção decorrentes de secas, enchentes, incêndios e outros extremos; como garantirá infraestrutura, água e logística aos territórios; e como fará o financiamento climático chegar às comunidades que já estão produzindo soluções. 

No Brasil, isso não exige começar do zero. Temos uma arquitetura robusta de segurança alimentar e nutricional e políticas públicas com capacidade de articular produção local, renda e alimentação adequada. Estudos do Ipea destacam, por exemplo, o potencial de políticas como o PAA e o PNAE para fortalecer a agricultura familiar e a segurança alimentar. Na COP30, o Brasil também apresentou o Marco de Referência sobre Sistemas Alimentares e Clima para Políticas Públicas, justamente buscando aproximar essas duas agendas.

Nos estados amazônicos, essa pergunta precisa ser ainda mais radicalmente territorializada. Não podemos importar para a Amazônia uma ideia de sistema alimentar construída exclusivamente a partir das grandes cadeias agrícolas. Aqui estamos falando também de agricultura familiar, pesca artesanal, extrativismo, quintais produtivos, povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhas e sistemas locais de abastecimento. Documentos construídos historicamente no campo da segurança alimentar já chamavam atenção, inclusive, para a necessidade de políticas sanitárias, feiras, arranjos produtivos e instrumentos públicos adequados às particularidades dos sistemas alimentares amazônicos. Portanto, uma política climática para sistemas alimentares na Amazônia precisa reconhecer quem já protege floresta, biodiversidade, água e diversidade alimentar enquanto produz comida.

Outra necessidade para transformar o debate sobre sistemas alimentares em incidência eleitoral é a unidade coletiva e essa reflexão também é legado da COP30, porque a sociedade civil foi capaz de reunir diferentes atores, formando uma grande coalizão brasileira ecoando a mesma mensagem: para o Sul global, a soberania alimentar dos povos é uma prioridade. Essa articulação que reúne organizações socioambientais, da agricultura familiar, negras, indígenas, de juventudes, pesquisadores, entre outras, precisa ser reativada, para fazer essa provocação mais uma vez, agora dialogando com as candidaturas sobre quais compromissos estão dispostas a assumir e quanto orçamento pretendem colocar atrás desses compromissos. Porque existe uma diferença fundamental entre colocar um tema no discurso e colocá-lo na agenda pública, que implica meta, política, orçamento, institucionalidade, participação social e mecanismo de acompanhamento.

2. Para o avanço da integração de agendas do campo climático e do campo alimentar no próximo ciclo governamental, o que deve ser observado nas prioridades de candidaturas nessas eleições?

Anália Barreto: As candidaturas precisam compreender e defender que agenda climática e agenda alimentar já não podem ser tratadas como duas agendas paralelas. Esse pode ser o principal legado da COP30 para o próximo ciclo governamental no Brasil. Uma agenda de ação que coloca a transformação da agricultura e dos sistemas alimentares associada à adaptação, à resiliência, à restauração e ao acesso adequado à alimentação. Portanto, precisamos olhar para os programas de governo de maneira transversal, observando a relação de onde está a comida quando essa candidatura fala de clima e onde está o clima quando ela fala de combate à fome, agricultura e desenvolvimento.

E essa integração precisa aparecer concretamente nas prioridades. Não é suficiente uma candidatura defender agricultura sustentável em uma página do programa e segurança alimentar em outra. Precisamos observar se ela propõe uma arquitetura de governo capaz de fazer agricultura, desenvolvimento agrário, meio ambiente, clima, saúde, educação, assistência social, planejamento e fazenda trabalharem de maneira coordenada. 

Outra observação é sobre quem aparece como sujeito dessa transformação. A transição dos sistemas alimentares não pode aprofundar desigualdades que já existem. É preciso entender na construção das candidaturas, qual é o lugar da agricultura familiar, da agroecologia, dos povos indígenas, comunidades quilombolas e tradicionais, pescadores artesanais, extrativistas, mulheres e juventudes rurais. Eles aparecem apenas como beneficiários vulneráveis ou são reconhecidos como agentes econômicos, produtores de conhecimento e protagonistas das soluções climáticas?

A adaptação climática também deve ser uma prioridade. Esse ponto precisa ganhar enorme centralidade no próximo ciclo governamental. Não podemos discutir sistemas alimentares olhando somente para emissões. Secas, enchentes, ondas de calor, incêndios e alterações nos regimes de chuva já afetam produção, pesca, transporte, armazenamento, abastecimento e preço dos alimentos. Sistemas alimentares resilientes exigem assistência técnica, pesquisa, crédito, seguro, infraestrutura, acesso à água, proteção da biodiversidade, sementes adaptadas, sistemas de alerta e capacidade de resposta a eventos extremos. E a agenda de ação da COP30 também reconhece isso.

Há um quarto critério que considero incontornável: orçamento e financiamento. Toda candidatura consegue afirmar que apoia sustentabilidade, agricultura familiar ou combate à fome. A pergunta politicamente relevante é: quanto pretende investir, por meio de quais instrumentos e quem terá acesso a esses recursos?

Também precisamos observar a capacidade das candidaturas de fortalecer, integrar e, sobretudo, implementar políticas que já conquistamos. Precisamos fazer as políticas existentes conversarem entre si e ganharem capacidade real de implementação. Uma compra pública de alimentos, por exemplo, pode ser simultaneamente política de segurança alimentar, geração de renda para agricultores familiares, fortalecimento de circuitos curtos, valorização da sociobiodiversidade e adaptação climática.

Há ainda um último critério que, certamente, diferencia profundamente uma proposta democrática de uma proposta apenas tecnocrática — a participação social. Quem vai decidir como essa transição acontecerá?

“Precisamos olhar se as candidaturas se comprometem com conselhos, conferências, consultas e mecanismos permanentes de participação; se pretendem produzir políticas com os territórios e não simplesmente entregar políticas aos territórios.”

3. Quais estratégias de incidência vocês estão realizando ou acompanhando no debate sobre eleições em torno da transição agroecológica e de outras soluções justas e sustentáveis de produção, beneficiamento, distribuição e comercialização de alimentos?

Anália Barreto: Nossa estratégia de incidência parte de uma compreensão de que eleições são uma janela importante, mas que a incidência política não começa nem termina no voto. Para avançarmos na transição agroecológica e na construção de sistemas alimentares mais justos e resilientes, precisamos fortalecer a capacidade política dos territórios para compreender as decisões que afetam sua vida, formular demandas, disputar prioridades e acompanhar a implementação das políticas públicas. Por isso, temos trabalhado em três dimensões articuladas: formação política, participação social e mobilização para incidência eleitoral.

Uma das principais estratégias é o Festival Amazônia Terra Preta, que realizamos no Amapá como um espaço de participação social, educação política e fortalecimento da democracia climática. Em 2026, construímos a programação a partir da provocação “A periferia sente, a periferia cobra: incidência política para o clima”. Isso é muito intencional. Queremos aproximar temas que muitas vezes aparecem de maneira fragmentada no debate público, como são os casos de soberania alimentar, racismo ambiental, adaptação, perdas e danos, transição justa, saneamento, desenvolvimento ou proteção territorial, para demonstrar que todos eles estão relacionados às condições concretas que tornam determinadas populações mais ou menos vulneráveis à crise climática.

Nesse sentido, o Amazônia Terra Preta funciona também como uma infraestrutura social de incidência. Não queremos apenas realizar painéis sobre clima; queremos criar condições para que agricultores, juventudes, mulheres, comunidades tradicionais, periferias urbanas, organizações da sociedade civil, pesquisadores e outros atores consigam reconhecer os problemas dos seus territórios como questões políticas e construir demandas sobre eles. Quando uma comunidade percebe que a dificuldade de acessar alimentos saudáveis, a ausência de assistência técnica, uma enchente recorrente ou a falta de saneamento não são problemas isolados, mas resultado de escolhas sobre orçamento e políticas públicas, nós ampliamos a capacidade dessa população de cobrar respostas do Estado. Isso é fortalecimento democrático e também política climática.

Uma segunda frente é o programa Jovens pelo Clima, Território e Soberania Alimentar, por meio do qual temos trabalhado com estudantes e jovens lideranças para formar uma nova geração capaz de compreender a relação entre clima, alimentação, território e política pública. A formação não se limita à tradução dos conceitos climáticos. Trabalhamos como uma política pública é construída, quem decide sobre orçamento, qual é a responsabilidade do Executivo e do Legislativo, quais instrumentos de participação existem e como transformar um problema vivido no território em uma demanda de incidência. Segurança alimentar, saneamento, queimadas, acesso à água, produção de alimentos e racismo ambiental deixam, assim, de ser apenas temas de formação e passam a ser portas de entrada para o exercício da cidadania e da liderança política.

Dessa formação nasce uma terceira estratégia, que é a campanha Jovens Guardiões do Clima nas Eleições. A proposta é estimular as juventudes a observarem candidaturas não apenas a partir de discursos genéricos sobre sustentabilidade, mas a partir de compromissos concretos. O que essas candidaturas propõem para agricultura familiar e agroecologia? Como pretendem enfrentar a insegurança alimentar? Que posição têm sobre compras públicas, alimentação escolar, assistência técnica e crédito? Há propostas para adaptação climática nas periferias? Há orçamento? Como pretendem garantir participação social? E, sobretudo, reconhecem os conhecimentos e as soluções que já existem nos territórios? Essa é uma dimensão importante da nossa estratégia porque não queremos formar apenas eleitores mais informados, queremos contribuir para formar sujeitos capazes de incidir politicamente antes, durante e depois das eleições.

No campo específico dos sistemas alimentares, nossa incidência procura também deslocar a narrativa. Agroecologia, agricultura familiar, sociobiodiversidade, circuitos curtos de comercialização, compras públicas e alimentação escolar não podem ser tratadas somente como políticas agrícolas ou sociais. Elas precisam ser reconhecidas como parte da infraestrutura de adaptação climática dos territórios. As eleições são uma oportunidade de colocar sistemas alimentares resilientes no centro da disputa sobre desenvolvimento e clima, mas nosso objetivo é mais duradouro.

“Para nós, fortalecer sistemas alimentares resilientes passa necessariamente por fortalecer a democracia e redistribuir poder de decisão.”

Sistemas alimentares

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      Sobre a doação

      Apoio para fortalecer a atuação do Instituto Mapinguari na agenda climática nacional e internacional, com foco na participação da sociedade civil amazônida e latino-americana na COP30. Por meio do apoio, a iniciativa organiza e coordena o Comitê COP30, uma articulação de mais de 90 organizações, que promove a integração regional na América Latina e a diplomacia da sociedade civil junto a embaixadas e representações internacionais. A iniciativa visa qualificar a presença da sociedade civil nas negociações climáticas, influenciar decisões e posicionamentos do Brasil e de países latino-americanos durante a Conferência, bem como assegurar que essas decisões considerem as realidades dos territórios vulnerabilizados.

      Valor

      R$ 200.000,00

      Duração

      12 meses

      Ano

      2025

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