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Milhares de vozes por reparação e bem viver: o marco histórico, político e social da 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras

Equidade racial
09.12.2025

Crédito: Gabriel Albernás

Equidade racial

Repertórios de enfrentamento à violência racial de Estado — Entrevista com Jurema Werneck

Diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, analisa momento crítico e aponta os desafios para a reconstrução de um horizonte democrático.

“Saímos às ruas para explicitar que sem Reparação não há possibilidade de democracia, justiça, igualdade e equidade em todos os domínios da vida humana. Considerando que ainda vivemos sob a lógica de relações de poder fundadas no colonialismo e escravidão; na era das catástrofes climáticas, que coloca ainda mais em risco as existências negras e de toda a biosfera; convocamos as mulheres negras de todo o mundo para, irmanadas, exigir Reparação histórica e construir as sociedades de Bem Viver que sonhamos.” (Trecho do Manifesto das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver)

No dia 25 de novembro de 2025, milhares de pessoas se reuniram para a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver em Brasília. A segunda edição aconteceu 10 anos depois da primeira, em 2015, e ampliou a capacidade da mobilização, bem como da sua abordagem às diversas agendas relacionadas às perspectivas das mulheres negras para a construção de outra sociedade.

Tal resultado, se expressa sobretudo na Semana por Reparação e Bem Viver, agenda que precedeu a realização da Marcha das Mulheres Negras em si, com atividades políticas e culturais como Diálogos Globais por Reparação e Bem Viver, reunindo mulheres negras de diversos países para alinhamento de demandas transnacionais; Baile da Cultura Ballroom com mesa, apresentações musicais e Kiki, marcando o encontro especial entre a cultura ballroom e a Marcha das Mulheres Negras; Sessão Solene no Congresso Nacional; e Audiência com o Presidente do Supremo Tribunal Federal; além de outras oficinas e rodas de conversas dos mais variados temas, incluindo política institucional, justiça climática, religiosidade, comunicação, tecnologia, filantropia, saúde mental, entre outros. 

Pensada a partir da AMNB — Articulação de Organizações de Mulheres Negras e composta pelo comitê nacional, assim como por comitês impulsores estaduais, municipais, regionais, temáticos e internacional, a realização da Marcha das Mulheres Negras parte de uma concertação entre diferentes organizações, movimentos, coletivos e lideranças. A governança complexa da Marcha, comprometida com a promoção de espaço para a diversidade de vozes e experiências entre os movimentos de mulheres negras, também oferece à sociedade uma forma de fazer coletivo e de construir outro mundo a partir do alinhamento de demandas e propostas, materializadas nos mais diferentes manifestos e documentos relacionados às múltiplas agendas que a Marcha mobiliza.

A Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver deixou um legado profundo de aprendizados e de fortalecimento coletivo, revelando a potência de uma mobilização diversa, marcada pela presença expressiva de pessoas de diferentes territórios e movimentos, e por uma organização capaz de conduzir milhares pessoas às ruas, se afirmando como uma das maiores articulações nacionais dos últimos três anos. Com a presença de delegações de ativistas negras de outros países das Américas, Europa e África, a Marcha se fez também um marco de mobilização global no contexto histórico das lutas de gênero e raça.

A beleza do encontro, a força cultural, política e social, assim como a imaginação radical seguem vivas desde a primeira Marcha das Mulheres Negras, em 2015. Todo o percurso preparatório e realização reforçam que a Marcha é mais que um ato — é um processo de transformação social com consistentes metodologias. Um processo que cresce, se expande, se reinventa e inspira a ampliação das agendas que emergem desse movimento histórico, que segue apontando caminhos para a construção de outro mundo.

O apoio do Ibirapitanga à Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver

Transversalizando dois objetivos da estratégia do Ibirapitanga — um voltado a fortalecer movimentos e lideranças negras para incidência em espaços de poder e outro dedicado a consolidar políticas de reconhecimento, reparação e de enfrentamento à violência racial — o apoio de R$ 1 milhão do instituto à Marcha das Mulheres Negras foi realizado ao fim de 2024, para viabilizar a organização por meio do comitê nacional. O apoio considera a diversidade e profundidade das discussões e ações promovidas pela Marcha das Mulheres Negras como uma estratégia mais ampla de atuação dos movimentos de mulheres negras, catalisadora de sua visibilidade, renovação e continuidade em direção à consolidação de políticas de reparação e aprofundamento democrático, assim como da construção de uma sociedade baseada no Bem Viver, a partir de perspectivas e práticas já presentes nas comunidades negras e ameríndias.

Ao longo do ano, além do apoio financeiro, o Instituto Ibirapitanga articulou e participou do comitê de filantropia da Marcha de Mulheres Negras, que reuniu um conjunto de organizações do campo com o intuito de mobilizar recursos para a realização da iniciativa. As ações incluíram os Cafés com a filantropia, no Rio de Janeiro e em São Paulo; a produção e impressão da cartilha O que a filantropia pode (e deve) fazer para a realização da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver; divulgação no Congresso Gife 2025; participação no planejamento de comunicação; e realização de encontros mensais online.

A equipe do Ibirapitanga também esteve presente na Semana por Reparação e Bem Viver, incluindo o dia da Marcha.

Organizações apoiadas pelo Ibirapitanga na Semana por Reparação e Bem Viver  

A partir do dia 20 de novembro, na semana prévia à Marcha das Mulheres Negras, e estendendo-se até 26 de novembro, Brasília se transformou em território de encontros, trocas e imaginações políticas com a Semana por Reparação e Bem Viver, que deu lugar a dezenas de atividades abertas ao público. De acordo com a organização, a Semana funcionou como um momento preparatório para a Marcha do dia 25 de novembro, para fortalecer vínculos, alimentar afetos e aquecer os debates que movem as lutas das mulheres negras no Brasil e no mundo.

Veja a seguir as organizações apoiadas pelo Ibirapitanga que realizaram atividades na Semana por Reparação e Bem Viver.

CEERT — Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades

No dia 24 de novembro, a organização realizou os “Diálogos Antirracistas CEERT 35 anos – a luta das Mulheres Negras e o Bem Viver”, atividade regional que buscou fortalecer estratégias de incidência política e articular práticas transformadoras no campo educacional e social, em consonância com os princípios do Bem Viver. A atividade posicionou as mulheres negras como protagonistas na proposição de novos paradigmas sociais e de alternativas para um projeto de sociedade que reconheça as diferenças como elementos constitutivos e enriquecedores da vida coletiva.

A programação contou com apresentações culturais e as atividades: “Ceert 35 anos – a luta das mulheres negras e o Bem Viver”; “As políticas públicas no âmbito da educação antirracista e a PNEERQ: diálogos sobre justiça social e racial”; “Oficina Desvendando o Manifesto Econômico da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver”; e “Luta, resistência e afirmação identitária das mulheres e juventudes negras: por uma educação interseccional antirracista”.

Cultne

No dia 24 de novembro, a Cultne, em parceria o Programa de Pós-Graduação em História e o Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Cidadania, da UnB, realizou o evento “Caminhos Abertos — Protagonismo Feminino na Cultne: Memória e Patrimônio Documental no Audiovisual”. Conduzida pelo Núcleo de Mulheres Negras na Cultne, a atividade se incorporou ao Programa de Extensão “Caminhos Abertos: Epistemologias Antirracistas e Antissexistas”, promovendo a divulgação de acervo e do Canal de TV da Cultne entre a comunidade acadêmica da Universidade de Brasília. 

A programação contou com a “Mostra CULTNE na UnB”, com exibição de filmes inéditos na UnB e debate com apresentadoras de programas da Cultne TV, sobre comunicação antirracista, memória e história pública.

ILÊ — Instituto Liberdade e Emancipação

No dia 24 de novembro, em parceria com a Frente pelo Desencarceramento do Rio de Janeiro, o ILÊ realizou a roda de conversa “Por Justiça e Bem Viver: a potência das mulheres negras”, abordando a atuação das mulheres negras à frente de projetos e iniciativas por justiça para familiares vítimas do Estado, para familiares que estão privados de liberdade e por justiça em suas diversas formas de expressão. O encontro buscou evidenciar o protagonismo dessas mulheres na construção de práticas de cuidado, resistência e incidência política, articulando o tema central da Marcha — o Bem Viver — à

luta cotidiana por memória, reparação e liberdade. A atividade reuniu mulheres negras

ativistas, mães e familiares ativistas, ativistas políticas, advogadas e articuladoras de

movimentos que vêm construindo caminhos de justiça e libertação em diferentes territórios.

Instituto Marielle Franco

No dia 22 de novembro, a organização realizou o lançamento do Livro “Rosas da Resistência: trajetória e aprendizados de mulheres negras não eleitas“, que documenta as trajetórias de dez mulheres negras lideranças defensoras de direitos humanos que não lograram assentos em casas legislativas municipais nas eleições de 2024. A obra analisa seus processos de candidatura no último ciclo eleitoral, os desafios enfrentados e as estratégias criadas para resistir, seguir atuando e ressignificar a política no período pós-eleição. O lançamento reforçou a agenda política da marcha ao reafirmar a importância da reparação e do bem viver como pilares de uma política construída a partir das experiências e da potência das mulheres negras.

Mulheres Negras Decidem e Iniciativa PIPA

Durante os dias 23 e 24 de novembro, o movimento Mulheres Negras Decidem promoveu a Casa MND, espaço de encontro, acolhimento e celebração na Semana por Reparação e Bem Viver, pensado como um ponto de convergência e intercâmbio entre mulheres negras cis, trans e travestis da política institucional, da sociedade civil, da filantropia e das artes, do Brasil e do mundo.

A programação contou com as atividades “Comunicação política e a cobertura de mulheres negras nas eleições”; “Quem financia a reparação e o bem viver?”; “Lançamento do MND Amefricanas”; “Ato Político: Ministra Negra Já!”; e “Mulheres negras na política institucional”.

A mesa “Quem financia a reparação e o bem viver?”, em parceria com a Iniciativa PIPA, propôs um aprofundamento do panorama da filantropia voltada para as mulheres negras no Brasil, discutindo como as grandes instituições de fomento e os fundos liderados por mulheres negras estão atuando para mobilizar recursos e promover equidade racial e de gênero. O diálogo destacou a importância do fomento a frentes de atuação como metodologias feministas de desenvolvimento institucional e captação das organizações; democratização e humanização da linguagem da filantropia; estratégias seculares de captação das mulheres negras; intervenção epistemológica na filantropia; e olhar granular para o que ainda não está sendo financiado. A conversa contou com a participação de Juliana Maia Victoriano, gerente do programa Equidade racial do Instituto Ibirapitanga, além de Jheniffer Ribeiro, do ICCI — Instituto Cultura, Comunicação e Incidência; Marcelle Decothé, da Iniciativa PIPA; Andreia Simplício, do Elas+; Maria Clara Araújo, do Black Feminist Fund; e mediação por Tainah Pereira, do Mulheres Negras Decidem.

Observatório da Branquitude e Oxfam Brasil

Numa parceria entre Gênero e Número, Observatório da Branquitude, Oxfam Brasil e a Marcha das Mulheres Negras, no dia 23 de novembro foi realizado o diálogo “Mulheres Negras, Dados e Justiça Climática: Caminhos para 2026”, que propôs um encontro entre ativistas, pesquisadoras e mulheres negras de diferentes territórios para debater como os dados podem fortalecer as lutas das mulheres negras por justiça climática, garantir direitos e ampliar a incidência política da Marcha das Mulheres Negras nos próximos anos. A atividade teve como ponto de partida o sumário executivo “Crise Ambiental e Climática: Mulheres Negras na Linha de Frente”, lançado por Gênero e Número, Observatório da Branquitude e Oxfam Brasil, que aponta desigualdades estruturais na exposição a riscos climáticos e seus impactos sobre mulheres negras. Além disso, foi apresentado em primeira mão o escopo do Estudo Nacional sobre a Marcha das Mulheres Negras, que tem lançamento previsto para 2026 e mapeia os avanços, desafios, agendas e percepções políticas das mulheres negras que constroem a Marcha em todo o Brasil.

Utopia Negra Amapaense

No dia 26 de novembro, a organização realizou o evento “Mulheres Negras e Clima: a biointeração para o bem viver”, em parceria com a WWF Brasil. A oficina formativa teve o objetivo de elucidar sobre mudanças climáticas, racismo ambiental e suas intersecções com gênero, raça e território, focando na experiência de mulheres negras como defensoras de seus territórios. A oficina foi dividida em dois momentos: um mais teórico, sobre os conceitos que compreendem a questão do clima na atualidade, e um segundo momento de escuta e troca de experiências sobre as discussões realizadas.

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      Sobre a doação

      Apoio voltado à mobilização e ao fortalecimento do movimento de mulheres negras no Brasil, por meio da realização da 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, marcada para 25 de novembro de 2025, em Brasília. A iniciativa prevê ações preparatórias em todas as regiões do país, bem como assembleias, encontros, seminários e webinários, além da elaboração de um documento político com propostas construídas por mulheres negras em sua diversidade. Com o apoio, espera-se viabilizar e ampliar a mobilização nacional, fortalecendo a organização de base, promovendo a incidência política e dando visibilidade às pautas das mulheres negras em defesa da justiça, da democracia, da reparação histórica e do Bem Viver.

      Valor

      R$ 1.000.000,00

      Duração

      18 meses

      Ano

      2024

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