
O legado profundo de aprendizados e de fortalecimento coletivo de uma das maiores mobilizações dos últimos três anos
A violência executada pelo Estado nos Complexos do Alemão e da Penha, em outubro de 2025, marca um ponto decisivo na disputa política e moral sobre quem tem direito à vida no Brasil. Um dos maiores massacres da história recente expôs não apenas a continuidade de uma política de morte dirigida à população negra e periférica, mas também a tentativa crescente de setores do Estado e da sociedade de naturalizar essa lógica. Ao mesmo tempo, revelou a urgência de fortalecer repertórios já construídos pelos movimentos negros e iniciativas que, há décadas, enfrentam a violência racial de Estado.
Desde 2024, no conjunto de iniciativas voltadas ao enfrentamento à violência racial, a Anistia Internacional conta com o apoio do Instituto Ibirapitanga para o projeto “O Ministério tem que ser público”, campanha de mobilização social voltada ao reconhecimento do papel dos Ministérios Públicos na redução da brutalidade e da letalidade policial contra jovens negros. A iniciativa inclui ações voltadas a documentar e publicar informações sobre violência policial; construir e implementar uma campanha de mobilização da mídia e da sociedade civil para ampliar a compreensão sobre o papel do Ministério Público no controle externo; realizar ações de incidência junto a governadores, a Procuradores-Gerais de Justiça do Amapá, da Bahia, do Ceará, do Rio de Janeiro, do Pará e de São Paulo, bem como ao presidente do Conselho Nacional do Ministério Público.
Nesta entrevista, Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, analisa esse momento crítico e aponta os desafios que se colocam à defesa dos direitos humanos, à proteção imediata das comunidades atingidas e à necessidade de reconstrução de um horizonte democrático.
Instituto Ibirapitanga: O massacre do dia 28 de outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha escancarou a triste realidade da política de morte do Estado. Ao mesmo tempo, ele apresenta um novo momento social, onde a exacerbação dessa lógica — expressa nas mais de 100 mortes em um único dia — passa a ter respaldo e até naturalização na postura de setores políticos e da grande mídia. Considerando a experiência e a inteligência que já vinham sendo desenvolvidas pelos movimentos que estão na linha de frente do enfrentamento à violência de Estado, quais desafios esse novo capítulo da história apresenta?
Jurema Werneck: Nós já sabemos que vivemos tempos muito difíceis. Tempos muito difíceis em que a ordem dos direitos humanos, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, as ideias de democracia e as ideias de liberdade não chegaram a se concretizar na experiência da população negra, de mulheres e homens negros. Mas essa ordem está sendo violentamente confrontada no nível global, no nível do Ocidente, mas também no nosso país.
Há grupos que querem definir uma nova ordem, que seja uma ordem baseada na lei dos mais fortes — e esse “mais forte” profundamente associado à supremacia branca, que quer impor sua vontade e seus interesses pela força das armas. Esses sujeitos, esses grupos políticos, tomaram posições importantes no Estado brasileiro e nos Estados da Federação nos últimos anos. Os supremacistas, são extremamente explícitos ao apresentar o seu rechaço ao que nós, população negra, população de favela e de periferia, representamos.
Isso é terrível. Os desafios são desse tamanho: tendo a perspectiva de quem nunca viveu a ordem antiga, precisamos, ao mesmo tempo, imaginar como confrontar essa nova ordem; como confrontar essa nova forma explícita e radical de violência; como confrontar essa profunda destruição, esse ataque às nossas aspirações de direitos humanos. Desafios desse tamanho referem-se a diferentes camadas: na vida cotidiana, na realização da segurança pública, no processo eleitoral e no acesso que queremos ter aos nossos direitos.
São muitos desafios. E está todo mundo desafiado — não só a população negra, mas, certamente, nós vamos pagar o preço mais caro e mais alto dessa turbulência, se é que se pode dizer assim.
Instituto Ibirapitanga: Ainda considerando essa experiência e inteligência, centralizar a questão racial nesse episódio de violência do Estado é fundamental. Como sempre (e infelizmente), é preciso evidenciar que a maioria das pessoas assassinadas eram jovens negros, fato que foi colocado em questão na grande mídia, bem como faz-se necessário lembrar o efeito que isso tem em comunidades periféricas, que são majoritariamente negras e cujo desejo de “resolução do problema de segurança pública” vem sendo politicamente disputado. Há pautas para além dessas que precisamos reforçar na racialização desse debate? Como podemos lidar com essas tentativas de esvaziamento e fortalecer o posicionamento das pautas raciais no enfrentamento à violência de Estado, diante do desafio atual de apropriação do tema de segurança pública na disputa política?
Jurema Werneck: É hora de atuarmos em diferentes níveis. O primeiro nível é o nível da emergência e da proteção. É uma confluência de crises, uma confluência de emergências. E, na linha de frente, estão mulheres, meninas, jovens, idosos e adultos, negros e negras de favela e periferia — não apenas, mas principalmente. No primeiro nível é necessário atuar para a proteção dessas vidas e comunidades. É urgente fortalecer as organizações locais, movimentos sociais, iniciativas que garantam a proteção dessas pessoas e comunidades.
Num segundo nível, é preciso desenvolver estratégias para exigir as obrigações do Estado. Apesar de se estar querendo construir uma nova ordem em que a visão dos direitos humanos vai ser destruída, ainda assim, isso não foi destruído.
Foi em épocas como essa que se criou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Foi em épocas como essa que surgiram os movimentos que inspiraram a Constituição Brasileira de 1988, que criaram direitos para a população. Essa época, é a época de aglutinação, de colaboração e de proposição de novas formas de estar no mundo, novas formas de fazer política, novas formas de resistência. Então, é preciso investir nisso também.
E, é claro, no nível mais amplo, é necessário atuar na imaginação e na produção de uma nova ordem mundial. Essa nova ordem é onde a gente, população negra, conseguirá se manter viva, protegida e alcançar a dignidade e o nível de direitos que precisa alcançar para viver bem no mundo.
São desafios imensos, são desafios complexos. Mas, veja, já houve momentos como esse na história da humanidade, na história da população negra no Brasil e no mundo. Essa hora é também a hora de aglutinar, de imaginar e de propor novas formas de estar no mundo.
Instituto Ibirapitanga: A Anistia Internacional esteve presente no ato Chega de Massacre, ao lado de familiares, moradores, organizações e ativistas que ocuparam as ruas dos Complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, no dia 31 de outubro de 2025. Em um vídeo registrado na ocasião, você mencionou que a Anistia estava reivindicando perícia independente e explicações do governador do Rio de Janeiro, assim como defendeu que as famílias precisam ter justiça e reparação. Como esse episódio de violação brutal de direitos deve mobilizar atenção e ações que somem ao repertório de experiências na reivindicação de justiça e reparação à violência racial, para a real consolidação de um Estado democrático de direito?
Jurema Werneck: Nós precisamos investir.
Já existe um repertório para a defesa de direitos, já existe um repertório, caminhos comprovadamente bem-sucedidos na história da nossa região, da América Latina e do Caribe, para confrontar episódios como esse de violência extrema e de grave violação de direitos. Precisamos recorrer a isso; precisamos de recursos para poder realizar esses protocolos.
Existem protocolos, e a gente precisa usar esses protocolos de maneira estratégica, consistente e sustentável.
É isso que está colocado: é violação de direitos. Existem mecanismos de reparação e de resolução das violações de direitos, e existem também mecanismos para promoção de direitos. A gente precisa lançar mão deles agora. A Perícia Independente é uma ferramenta que certamente vai contribuir no caso desse massacre, mas, ao lado disso, diferentes outras ações precisam ser colocadas em prática concomitantemente.
E é preciso valorizar o esforço da população e das organizações dos Complexos do Alemão e da Penha, que colocaram na rua uma manifestação pujante e potente, como aconteceu por lá, onde nós, da Anistia Internacional, estivemos. Mas não pode ser a única, não pode parar por ali. Existe um longo caminho pela frente para garantirmos a consistência necessária para que coisas como essa, de fato, não se repitam e para que as famílias afetadas e as comunidades violentamente impactadas consigam alcançar a reparação necessária.
Sobre a entrevistada
Jurema Werneck é médica e doutora em Comunicação e Cultura pela UFRJ, é Diretora Executiva da Anistia Internacional Brasil e co-fundadora da ONG Criola. É referência em direitos humanos, igualdade racial e de gênero, e saúde da população negra. Publicou livros e artigos sobre racismo, saúde, direitos sexuais e reprodutivos. Integra os Conselhos do Greenpeace e da Vital Strategies Brasil.
O legado profundo de aprendizados e de fortalecimento coletivo de uma das maiores mobilizações dos últimos três anos
Sobre a doação
Apoio à iniciativa “O Ministério tem que ser público”, campanha de mobilização social voltada ao reconhecimento do papel dos Ministérios Públicos na redução da brutalidade e da letalidade policial contra jovens negros. O projeto prevê: (i) a documentação e publicação de informações sobre violência policial nos últimos dois anos; (ii) a construção e implementação de campanha de mobilização da mídia e da sociedade civil para ampliar a compreensão sobre o papel do MP no controle externo; (iii) a realização de ações de incidência junto a governadores, Procuradores-Gerais de Justiça dos seis estados prioritários (RJ, SP, BA, CE, PA, AP) e ao presidente do Conselho Nacional do MP.
Valor
Duração
Ano
Sobre a doação
Apoio voltado ao fortalecimento da iniciativa “Enviados à COP30” e tem como foco ampliar a atuação das enviadas especiais Jurema Werneck (Equidade Racial e Periferias) e Denise Dora (Direitos Humanos e Transição Justa) na COP30, fortalecendo suas interlocuções com a sociedade civil. O projeto prevê a realização de seis plenárias presenciais em diferentes biomas brasileiros — Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa — para mapear conflitos socioambientais, identificar soluções locais e sistematizar demandas que contribuam para uma maior ambição climática, alinhada à equidade racial, de gênero e aos direitos humanos. Também contempla ações de incidência internacional durante a Semana do Clima da ONU, em Nova York, e no Conselho de Direitos Humanos, em Genebra.
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