O Instituto Mapinguari é uma organização não governamental fundada em 2015 na Amazônia, dedicada à defesa, preservação e conservação do meio ambiente e à promoção do desenvolvimento sustentável na região. Sua atuação concentra-se na consolidação e fortalecimento de áreas protegidas, especialmente no Amapá, valorizando o capital ambiental, cultural e socioeconômico desses territórios. O Instituto reconhece e apoia o protagonismo das comunidades tradicionais na proteção da biodiversidade e na promoção da justiça social e climática.
Afluentes da visão sistêmica: como organizações da sociedade civil coordenam conexão entre alimentação em clima na COP30
Sistemas alimentares
07.11.2025

A transição para sistemas alimentares justos, saudáveis e sustentáveis exige apoio diversificado, coordenado e de longo prazo, capaz de impulsionar soluções climáticas com justiça social e territorial. Esse processo tem como caminho fundamental o fortalecimento de organizações da sociedade civil, suas redes e movimentos, pilares indispensáveis para a construção de sistemas alimentares democráticos.
O contexto da COP30 — Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, revela-se como ambiente singular para articular uma visão integrada e sistêmica entre clima e alimentação, oportunidade para influência estratégica sobre políticas, práticas e narrativas que moldam os sistemas alimentares e climáticos.
É com essa compreensão, que organizações da sociedade civil promoveram diálogos, articulações e parcerias para incidir sobre o cenário da COP30, de uma perspectiva mais compartilhada e conectada, voltada a fortalecer e aprofundar a agenda de sistemas alimentares sustentáveis e justos no debate climático.
A partir de três eixos complementares — articulação, comunicação e incidência política —, entenda como iniciativas apoiadas pelo programa Sistemas alimentares do Ibirapitanga estão consolidando uma atuação coordenada entre si, que atravessa territórios, biomas e frentes de conhecimento.
O conteúdo é baseado em informações coletadas num encontro online com organizações donatárias, realizado em setembro.
ARTICULAÇÃO
A articulação entre redes, organizações e territórios é um eixo estruturante das estratégias de atuação na COP30.
A ANA Amazônia participa da organização da Cúpula dos Povos, articulando redes agroecológicas e extrativistas e prevendo a oferta de alimentação agroecológica gratuita para 10 mil pessoas por meio do PAA — Programa de Aquisição de Alimentos , em parceria com o MST — Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra e a Conab. A iniciativa consolida o abastecimento agroecológico como política pública e fortalece organizações amazônicas.
A Aliança Científica Antirracista atua com 22 pesquisadores em todos os biomas, produzindo evidências sobre terra, território, alimentação tradicional e saberes afrobrasileiros e indígenas. Sua presença na COP30 está articulada à CONAQ — Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, APIB — Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e Via Campesina, com foco na valorização da agroecologia e da agrobiodiversidade quilombola. A CONAQ, por sua vez, promoveu duas pré-COPs internacionais, fortalecendo a presença dos povos tradicionais nos debates climáticos.
O Instituto Comida do Amanhã coordena o coletivo “Café com Comida – Ocupa COP30”, que reúne 44 instituições com o objetivo de ocupar múltiplos espaços da conferência — Zona Azul, Zona Verde, Nature, Indigenous Peoples, Health e Amazon Climate Hub. A organização também organiza o Food Roots and Routes Pavilion, um polo de debates de sistemas alimentares da sociedade civil organizada na Zona Azul.
A FIAN Brasil atua no eixo de soberania alimentar na Cúpula dos Povos, em articulação com parceiros latino-americanos.
A Rede Penssan desenvolve mapeamentos e grupos de trabalho descentralizados sobre soberania e segurança alimentar e nutricional.
Por fim, o Observatório do Marajó participa pela primeira vez de uma COP, articulando atividades no Espaço Casa do Povo e nas ruas de Belém.
COMUNICAÇÃO
A comunicação emerge como eixo estratégico para visibilizar narrativas contra-hegemônicas e conectar alimentação, clima e justiça social.
O Instituto Comida do Amanhã realiza treinamentos para jornalistas com o Amazônia Vox e conduz a campanha Na Mesa da COP30, além de elaborar conteúdos especializados sobre sistemas alimentares para divulgação em canais da COP e junto a autoridades.
A Repórter Brasil faz cobertura jornalística nas Zonas Azul e Verde, com foco em captura corporativa, territórios e sistemas alimentares, incluindo a exibição do documentário Pau d’Arco.
A Vital Strategies, em parceria com Uma concertação pela Amazônia, lança o relatório Mais Dados Mais Saúde: Clima e Saúde na Amazônia Legal.
O Instituto Mapinguari aposta em mensagens artísticas visuais e itinerâncias sobre soberania alimentar e agricultura resiliente.
O Joio e o Trigo, junto ao Instituto Socioambiental, desenvolveu o curso Clima e Sociobiodiversidade – Formulando Soluções de Futuro, disponível gratuitamente no site Joio Formação. A iniciativa apresenta conceitos como racismo ambiental, mercado de carbono e emergência climática, traduzindo temas complexos para públicos amplos e promovendo a apropriação dos debates da COP30 por lideranças de povos e comunidades tradicionais.
APIB, CONAQ E MPA atuam com comunicação de guerrilha, participando da campanha A resposta somos nós — uma iniciativa global que parte dos movimentos indígenas e territoriais para destacar que as soluções climáticas já existem nos territórios.
A Rede Penssan promoveu webinários científicos pré-COP30 — Diálogos e conexões entre ciência e política na agenda de alimentação e clima —, fomentando interações entre ciência, política e sociedade.
Já a Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável estrutura uma campanha de comunicação de longo prazo (2025–2027), voltada à apropriação social da agenda da COP30, destacando avanços, compromissos e lacunas na interface entre alimentação, clima e saúde.
INCIDÊNCIA
A incidência política das organizações se desdobra em arenas formais e autônomas, buscando inserir a agenda alimentar nos espaços oficiais da COP30 e fortalecer o protagonismo da sociedade civil.
O Instituto Comida do Amanhã participa do GT Sharm-El-Sheikh, contribuindo com perspectivas do Sul Global nas discussões sobre segurança alimentar e sistemas sustentáveis. A instituição também conduz reuniões com enviados especiais e articuladores governamentais, apresentando experiências brasileiras e posições conjuntas com redes parceiras.
O Instituto Mapinguari atua no Sharm-El-Sheikh Joint Work on Implementation of Climate Action on Agriculture and Food Security (SJWA) e elabora um policy brief de recomendações para o comitê da COP30, com foco em financiamento, indicadores de adaptação e governança territorial.
A FIAN Brasil e a Aliança Científica Antirracista incidem na Cúpula dos Povos, articulando redes regionais e latino-americanas em defesa do direito humano à alimentação e da justiça racial.
A CONAQ amplia a visibilidade quilombola com o lançamento da NDC Quilombola e novos dados sobre territórios da Amazônia, reforçando a presença dos povos tradicionais nos debates sobre clima e biodiversidade.
Em convergência, essas ações apontam para uma estratégia de atuação no contexto da COP30 que combina produção de evidências, ocupação de espaços decisórios e diplomacia social, reafirmando o papel das organizações brasileiras na transformação dos sistemas alimentares globais.